Eu havia passado tempo demais fora do meu tempo, e era hora de voltar pro presente. Fazia um ciclo que eu tinha saído de lá, e ficar à deriva no espaço-tempo não estava me fazendo bem.
No centro do meu túnel temporal, captei uma frequência que não era emitida até mim fazia tempo. Apesar do sinal completamente embaralhado, meu sensor captou uma mensagem que dizia: “Eu não consegui ver para quando você estava indo”.
A gravidade se achatou completamente e, em um microssegundo, o túnel sofreu uma deformação que eu acreditava que nunca sentiria mais. Poderia ser? Ele se partiu antes que eu pudesse definir o destino, e aterrissei em um pátio de trens abandonados.
As nuvens passavam atrás de uma decoração marcante: bicicletas soldadas, unidas firmemente, como um emaranhado de metais. Lá estava ela mais uma vez.
No segundo em que a vi, o tempo congelou. Mil momentos se passaram até ela virar o rosto. Seus olhos, cor de café com mel, cruzaram instantaneamente com os meus.
Eu confesso que tentei escapar, mas foi inútil. Afinal, como um viajante pode escapar pelo tempo, se, quando estou com ela, o tempo desaparece?
Sua capacidade de dobrar o tempo ainda bloqueava a minha habilidade de viajar por ele. Passar sete horas com ela ainda parecia sete minutos. Não havia o que ser feito, além de experimentar o que aquele lugar tinha para oferecer e escutar suas histórias.
Dividimos três copos, e ela me contou sobre todos os quadrantes que visitou pela galáxia, incluindo o meu. Me disse que gostaria de ver todos os quatro cantos do universo enquanto o sol continua a brilhar forte, antes de decidir aonde quer permanecer. Ela mapeou cinco mil quadrantes do universo em seu quarto, e agora visita todos eles, um a um.
Pude ouvir falar de todos os lugares por onde passou e de suas aventuras. Nunca a tinha visto tão confortável comigo como naquele dia. Saquei meu dispositivo ótico e a registrei. Na imagem estava ela, dentre infinitas possibilidades: imagem de uma imagem de uma imagem: Regressão infinita.
Ela me levou para viajar pelo espaço, e passamos por alguns desafios complicados juntos. A todo momento eu me questionava se deveríamos utilizar algum guia inteligente que nos ajudasse
— Somos plenamente capazes de descobrir como e para onde ir. Não precisamos de ajuda — dizia ela, exaltando nossa capacidade de trabalhar juntos.
O tempo foi passando, e meus olhos foram cansando. Ela ficou sem energia, e o tempo acabou. Dormiu em meu túnel temporal pela primeira vez, e eu também adormeci.
De todos os cenários que passaram pela minha cabeça, este nunca havia sido concebido. Apesar de nada ter acontecido, foi como havia de ser, como sempre é. Ela foi embora antes que eu pudesse perceber sua ausência, como sempre faz.
Dentre todos os momentos que posso visitar, desde a criação do universo até sua compressão, esse é o meu favorito: a noite em que ela dormiu no meu túnel temporal.
Ela me deixou apenas com a lembrança mais recente, da garota que dobrava o tempo.
Image: unplash by @Михаил Секацкий
Ecleticamente boêmio e desesperadamente romântico. Cada pé na bunda rende mil cervejas e alguns poemas.
