Mantenho a tradição de voltar pelo menos uma vez por ano ao meu lugar favorito. A viagem dura alguns ciclos, mas acontece no presente. Bem, pelo menos por algum tempo acontece no presente, e paradoxalmente se torna passado em instantes.
Viajar para lá é uma experiência curiosa. A cada vez que retorno, os bebês de outrora já são crianças, as crianças já adolesceram, e os adultos ganham cada vez mais fios brancos e rugas. Retornar ao meu lugar favorito é sempre um salto para o futuro, e por mais que não seja a minha primeira viagem no tempo, é sempre uma surpresa encontrar humanos atravessando e sendo atravessados pelo tempo.
Materializei-me no espaço-tempo e aterrissei em um quadrante e momento específicos: em um monte, no meio de uma densa floresta. O asfalto, outrora liso, exibia buracos e frestas que o tornavam ainda mais tortuoso que o comum. Suas curvas fechadas guiavam os automóveis, que raramente ali passavam, até uma humilde casa. Dela podiam-se ouvir assobios que se projetavam através da mata e convidavam animais à sua direção.
O emissor dos sons: o primeiro viajante do tempo.
Com uma faca na mão, lentamente cortava algumas bananas para alimentar os seres que o visitavam diariamente. Fazia esse ritual religiosamente às oito horas da manhã. Ironicamente ou não, para alguém que sempre viajou pelo tempo, hoje ele era guiado pelo relógio.
Ao me reconhecer, sua expressão abatida e cansada deu lugar a um sorriso desengonçado. Era claro que não mais viajava pelo tempo, mas finalmente o tempo viajava por ele. Seus poucos cabelos eram todos prateados, suas roupas simples e sua mobilidade limitada. Talvez seu corpo não suportasse mais viajar pelo tempo, mas nada disso o impedia da tarefa muito mais importante: fazer o café — que sempre oferecia ao me ver.
Em mim via um vislumbre de seu próprio passado, quando ainda podia usar sua habilidade. E eu era como me olhar no espelho daqui a alguns bons anos-luz. Era como se o passado e o futuro se encontrassem no presente.
Éramos bastante semelhantes, como muitos já haviam me dito. Era natural, pois, além de parte do código genético, também dividíamos a mesma habilidade de viajar no tempo. Entretanto, víamos o mundo de formas diferentes: onde eu via o universo e o tempo como arte, ele via técnica. Usou muito de sua habilidade para entender como fótons poderiam viajar pela maior distância no menor tempo possível. Passava horas me explicando sobre a viagem pela luz, a compressão de informação e a largura de banda, e se hoje sei o que é multiplexação por divisão de comprimento de onda, é por sua causa.
Nós dois, por conta de nossa habilidade, enxergamos o tempo de forma tão efêmera que, como dizem os humanos, “perdemos muito tempo que não pode ser recuperado”. Mas o tempo não é algo que se perde nem se recupera, porque ele não é nosso. Ele é como uma estrada, que se navega em linha reta em apenas um sentido. Portanto, fiz questão de passar o dia com ele e absorver esse pequeno momento no meio da infinitude de tantos outros.
Ele me levou para conhecer um templo que frequentava ocasionalmente. Lá se encontravam todos os seus amigos que foram tocados pelo tempo: uns reclamavam do braço, outros de tarefas que precisavam resolver. Mas todos, absolutamente todos, compartilhavam da mesma bebida gelada embaixo de um sol quente, típico do clima local. Fizemos o mesmo, ele e eu.
Pude notar seu cansaço junto com seu misto de emoção. Não dizia muito, mas seus olhos o denunciavam. Por outro lado, pude conhecer um pouco de suas aventuras pelo tempo — muito mais extensas e divertidas do que as minhas. Passou horas me contando as mais de mil histórias pelas quais havia passado.
De lá, seguimos para uma praia vazia, onde o único som que se podia ouvir era o gralhar das gaivotas que ali passavam. O trecho de areia fina e branca era tocado e largado por ondas de um mar verde-azulado. Sobrevoei o local para entender onde estávamos; afinal, para mim era tudo muito novo. Para ele, pelo contrário, era como uma segunda residência. Estava muito mais interessado em entender como eu me encontrava, ou como eu usava minha habilidade por quadrantes pelos quais ele nunca havia passado. Seu olhar expressava preocupação e cuidado, como quem quisesse compensar algo que deveria ter sido feito anos-luz atrás. Ele, mais do que ninguém, havia entendido que ignorar o tempo tem um preço alto demais.
O primeiro viajante do tempo havia entendido que o tempo não é linear, é dinâmico, mutável e quântico. Acontece a todo momento e em paralelo. Ele pode sentir, e eu também.
Ao nos despedirmos, eu disse: – Ciclo que vem, estarei aqui novamente. – Ao que respondeu prontamente: – Até lá.
Espero que o tempo permita.
Picture: Gabriel Freitas, edits via Grok
Ecleticamente boêmio e desesperadamente romântico. Cada pé na bunda rende mil cervejas e alguns poemas.
