Passamos quarenta e cinco dias no mar. Só eu e ele, sem nenhuma viva alma que nos acompanhasse. Buscávamos uma ilhota escondida pelo arquipélago. A comida estava acabando e improvisamos coleta de água da chuva usando um pouco do forro das velas e uns barris velhos. Passamos por tanta coisa pela ilha prometida, para que pudéssemos finalmente viver, ao invés de sobreviver.
O garoto era gente boa, tinha levado um pé na bunda antes mesmo de embarcar comigo. Cheio de sonhos e perspectiva, mas seu brilho havia se esvaído por conta de sua paixão não correspondida.
Certa noite, abri uma garrafa de conhaque. Bebemos inteira em algumas horas e quando o silêncio era absoluto e só se podia ver a luz das estrelas. O garoto decidiu falar.
– Porque, capitão? Porque é tão difícil encontrar a felicidade em uma mulher? – Indagava frustrado enquanto derramava algumas lágrimas.
– Não sei. Aliás, não sei se é possível encontrar a felicidade. Talvez seja mais fácil encontrar essa porra dessa ilha.” – Disse ao tomar meu último gole.
– Eu achei que havia encontrado nos olhos dela. Eu estava realmente feliz, e achei que pudesse finalmente parar de procurar. Que idiota eu fui – Socou a parede do convés, enquanto derramava mais lágrimas. –
Eu olhei para o céu estrelado, olhei pro garoto e joguei a porra do copo no chão.
– Até quando vai continuar chorando, porra?! Não há tempo. Não há tempo pra porra nenhuma. Se tiver sorte, terá oitenta anos para gastar. Quer realmente passar esse tempo chorando por alguém que te desprezou? –
Ele se assustou com meus berros, abaixou a cabeça, secou suas lágrimas e olhou diretamente para mim.
– Estou cansado, capitão. –
Não lembro muito bem como aquela noite terminou, mas sei que acordei com um facho de luz na minha escotilha. Algo que me dizia que eu havia dormido demais. O barco chacoalhou incessantemente e me jogou para fora da cama. Subi ao convés e lá estava a porra da ilha. Estávamos à alguns metros da costa. Corri para acordar o garoto e avisar que enfim, havíamos chegado! Estaríamos ricos em breve.
Ao abrir sua porta, notei que ele não estava mais lá. Somente seu corpo se encontrava em seu quarto. O nó de marinheiro que eu o havia ensinado havia sido usado não para navegar, mas para se despedir. Um bilhete no chão dizia:
– Obrigado por tudo, capitão. Mas estou cansado. Agora vou descansar.–
O garoto não foi sortudo. Não teve oitenta anos para gastar.
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Ecleticamente boêmio e desesperadamente romântico. Cada pé na bunda rende mil cervejas e alguns poemas.
