A garota que dobrava o tempo

Ao viajar para o futuro, no meio de um túnel temporal, me deparei com ela. Era algo diferente de tudo que eu havia visto em todas as minhas viagens pelo espaço-tempo.

Enquanto eu precisava da habilidade de viajar no tempo para me locomover, e portanto, estava limitado por suas próprias regras. Ela, por outro lado, reescrevia as regras do universo e tinha a habilidade de dobrar a própria trama de seu tecido.

Sua voz era doce, suave e ecoava como o único sopro de som no espaço. Seus olhos, como dois buracos negros, demonstravam sua a própria singularidade, onde a curvatura do espaço-tempo era infinita E eles me puxavam para perto dela, como eu jamais poderia imaginar.

Enquanto eu viajava por épocas, ela viajava por galáxias como um fóton. Mais rápido do que a luz e ia para todos os destinos imagináveis ao mesmo tempo.

De vez em quando, eu tinha o privilégio de passar tempo com ela até que desaparecesse novamente para sua próxima jornada. Pude a cada vez descobrir um pouco sobre quem era, mas sua natureza e propósito ainda parecem um mistério, afinal. Apenas sabia que seu plano era visitar mais de 5000 quadrantes do universo e que quando desaparecia, estava possivelmente passando por algum deles. De toda forma, o que me deixava mais intrigado era a dilatação temporal que circundava sua existência. O próprio tecido do cosmos era dobrado à sua vontade, e a gravidade tão pesada como se fosse em direção ao infinito a cada olhar ou sorriso dela. Como se o próprio universo esquecesse de todas as suas regras estabelecidas quando ela estava presente. E eu, um humilde viajante do tempo, que já havia vivido várias épocas, e conhecido uma infinidade de pessoas, ainda ficava surpreso que passar sete horas com ela parecia, ao mesmo tempo, sete minutos.

Fiz questão de tentar registrar esse fenômeno num dispositivo óptico de outra época e tudo o que consegui foram dois rastros de fótons rasgando o tempo que parcialmente escondiam seu olhar e seu sorriso. Ela seguiu para sua próxima viagem pelo universo.

E me pergunto se, em alguma dobra do tempo, irei vê-la novamente.

Photo: @Sergey Savenko at unsplash.com