À francesa

Algum tempo atrás nos reunimos e decidimos dar uma festa. Uma amiga, outro amigo e eu. Eu não sou muito festeiro, e confesso até que meu pecado talvez seja ser um tanto caseiro demais, mas a oportunidade bateu na porta e aproveitamos.

A verdade é que o evento estava um pouco parado, menos com cara de festa e com muito mais cara de social entre amigos. Até que chegou um grupo de frances, ex-colegas de trabalho desse meu amigo. Ele havia me dito que dentre este grupo, tinha uma garota meio francesa e meio brasileira. Nem sabia se ela viria mesmo, mas o grupo dos franceses chegou e fomos nos apresentar. Dentre o grupo, uma voz se sobressaiu

– Você é brasileiro né? – Ouvi a interrogativa bem baixinho mas a respondi afirmativamente.

Ela era linda, e sua beleza intrigante percorria o fauvismo de Matisse até o modernismo de Tarsila, da Tropicália ao Nouvelle Vague. Sua pele fustigada pelo sol, ausente naquele lugar, denotava que sua alma pertencia aos trópicos, quente. Desde seus cabelos escuros, aos olhos de jabuticaba. O contraponto perfeito à sua delicadeza, digna da Belle Époque, como se suas duas metades estivessem tentando devorar uma a outra, e essa beleza complexa capturar a minha curiosidade de uma forma inexplicável.

Fui até ela e conversamos. 

– Você é de São Paulo, né? – Ela perguntou intrigada

– Assim você me ofende… – respondi prontamente a provocá-la

Rapidamente ela havia entendido que eu era do Rio pela resposta. Eu, curioso pela sua natureza, perguntei como poderia a sofisticação francesa ter se unido a irreverência brasileira.

– Meus pais se conheceram no Japão. E foi daí que tudo começou. Minha mãe é brasileira e meu pai francês. Estão juntos até hoje. – Disse enquanto sorria, com uma gentileza incompatível com os nativos do lugar onde vivíamos.

– Japão sempre foi o meu sonho – Respondi.

A conversa continuou por algum tempo, e me lembro de trocarmos os números para um típico churrasco brasileiro na minha casa. Não possuo mais recordações depois desse momento já que meu nível etílico já estava elevado.

Depois disso, ela foi embora. Se havia ficado lá por meia hora, já teria sido muito. Mas ela deixou uma estampa no meu cérebro, que dura até hoje.

Fez o que se esperava:

E saiu à francesa.

Picture: @Letizia Bordoni at Unsplash.com